Quando as partículas de poeiras são um show em câmera lenta, dançando em frente uma luz branca forte de um holofote, você sabe que a sua cabeça está flutuando em outro lugar, qualquer lugar, menos no agora.
Eu raramente estou onde deveria. Quando estou parado, pode acreditar, não estou ali. Já perdi longas histórias, poemas e músicas em momentos críticos de poucos segundos onde a mente se desliga de onde estou e se esvai para outro lugar.
O corpo reage ao que acontecem com as coisas ao redor, não interage. Vagueio em meio ao que acho ser um linha de pensamento. É como imaginar um raio de luz do ponto de vista do observador. Você está dentro ou fora da luz?
As mãos costumam procurar papel e caneta. Se tiver muita sorte, estou no meio de um texto. Mas quase nunca é assim. A força, essa “luz” sempre vem quando menos se espera.
Com uma caneta na mão eu me perco. A sensação é de desespero.
Como eu vou escrever tão rápido enquanto penso? No teclado, é muito mais fácil. Posso errar que o backspace e o delete são meus amigos para esquecer e concertar erros. Mas com o papel e caneta na mão, a lentidão e os erros são o delete de algo muito bom, que nunca pode vir a se repetir.
Não existe muito tempo. As palavras vem, as imagens surgem. Rimas são raras em meio o que tudo se encaixa para criar uma dança lógica escrita no âmago do caos.
“Ela corre. Seus passos são ouvidos pelos estalos ao encontro com a água da chuva que cobre o piso de cimento imperfeito…”.
A imagem se desloca em meus dedos, não tenho tempo para parar. É vivido. Eu estou lá, vendo tudo, criando cada passo em minha mente e desenhando o traçado mal feito do chão em qual ela corre. A sua respiração é a fôlego que tomo a cada linha terminada. A aflição guia as linhas que tomam a forma do que eu desenho e desejo. O medo que a garota sente, no fundo é a cria do meu próprio universo. Ela foge de mim, o escritor que calculou toda a sua existência em linhas cheias de significados calorosos por humanidade, sendo uma mera vitima da minha vontade de contar a história de como ela chegou em uma situação de perigo.
Eu sou o criador, e o destruidor. O medo e o assassino que busca por ela. Assim como cada dedilhar de minhas idéias são mostradas no papel na forma de mostrar que existe uma esperança. Afinal o suspense é movido pela expectativa de que no final, tudo vai ficar bem. Mesmo que estejamos nos deliciando com a aflição no momento de pavor que monta em nossos olhos e mentes ao consumir esse tipo de histórias.
É tudo tão claro em seus detalhes que chega ser mais que um filme. Eu me encontro em meu mundo. Meus pensamentos são formados em cada detalhe. Materializando cada momento de tensão descrito. A aflição da garota cresce junto com a proximidade do assassino. Ela sabe que morrer nas mãos dele é não será a única coisa. Ele é diferente. Um monstro de histórias para dormir. Histórias antigas.
Nesse momento, quando a ameaça é estabelecida e a garota está cada vez mais presa no labirinto em que entrou. O herói emerge em meio ao conflito.
Suas razões não são nobres, a sua culpa foi detalhadamente criada por séculos de más condutas e atos inimagináveis. Pelo menos para o leitor. Afinal, ao escrever cada ação do “herói” levo em consideração cada detalhe do passado negro que se oculta em seus recentes atos. Meus “heróis” são extensões minhas. Cheios de falhas, que moldam o que viria a ser os seus atos em busca de redenção consigo mesmo. Meus arrependimentos do passado, coisas que não fiz, não tive coragem, normalmente voltam para me atormentar. Em meus “heróis” o passado é a bala que se aproxima em câmera lenta. A definição de que o fim está se aproximando, e que algo precisa ser feito para ele seja parado.
Novamente, eu estou ali. Eu sou o herói. Ou o que pode salvar a garota, assim como acabar com ela ao mesmo tempo.
Tudo acontece em segundos, os detalhes são as linhas que correm pela minha frente. Eu não posso parar, não olho para a minha mão. Simplesmente ela transmite aquilo que eu desejo. Em minha mente, o assassino e o herói são os lados desenvolvidos pelo meu consciente em busca do momento em que tudo se colide. A vida da garota, a motivação do assassino e a culpa do herói.
Seja o que for, onde for. A história me toma. Eu não estou ali. Meu mundo se fecha em prédios altos das minhas histórias. Em delírios absurdos de pensamentos avulsos, de líricas declarações de sentimentos cultivados, em pensamentos de desejos fortes ou em deleites de uma imaginação fértil. Naquele espaço onde o tempo não existe, o corpo não se prega as barreiras do aqui e agora. Eu sonho em meio aos meus pensamentos e devaneios.
Os belos sonhos. Em que as noites são eternas e onde eu crio cada uma delas.
P.S: Isso é um relato da experiência de escrever em meu livro de ficção/fantasia.
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