20
Mai
08

It’s All about the Blues – Happy Birthday! You’re Drunk at the Moon.

O dia chegou. Bem, são 3 da manhã, então eu me apego as coisas boas da noite.

Faço 25 anos agora. E como toda madrugada boa de celebração semi-solitária na frente do computador escrevendo, eu me dissipo da realidade seguindo para o meu lugar favorito. Charlie’s Bar.

Eu me visto de forma impecável. Bom e velho terno preto, o chapéu Fedora tendendo para o cinza, a gravata da cor de cinzas, no bolso o cigarro escapa para a mão e junto com o fogo levado a boca, eu peço ao velho Billy no bar para me ver a primeira dose da noite.

O meu velho amigo Tom está no palco contando uma história de como passou uma noite até o amanhecer, sem parar, em uma grande jam session com a banda. Ele se divertiu tanto que tudo foi perfeito. Até que a sua mulher apareceu no meio da platéia, ela tinha lagrimas nos olhos por que estava preocupada. Sem saber onde ele estava ela havia corrido até o bar onde fazia o show. Triste, Tom fez a promessa que nunca mais tocaria novamente. Antes de continuar com juras de amor, a mulher lhe deu um tapa na cara, e disse para ele nunca mais brincar com uma coisa dessas. E em seguida pediu para ele tocar mais uma música para ela.

E foi assim que ele tocou músicas de amor para uma vida inteira, até a noite seguinte.

As damas ficam derretidas com os olhares fitando aquele velho galanteador por alguns segundos, suspirando. Até que ele diz:

- Isso até ela me deixar por aquele desgraçado de chapéu ali no bar!

Todos viram olhando para mim como se fossem arrancar a minha cabeça com os cinzeiros de aço em cima da mesa. Mas Tom continua:

- Mas como era o aniversário dele, eu acho que ele ganhou um presente de grego cheio de espinhos. Por que aquela mulher acabou com a minha vida! Senhoras e senhores, hoje é o aniversário do meu amigo, então ladies, façam o garoto feliz e dêem a ele um beijo de aniversário.

Logo os olhares de ódio se tornam sorrisos e Dorithy, Jenny, Candy, Cindy e Melany vem ao meu encontro fechando o meu rosto com o batom vermelho de suas bocas afiadas.

Eu levanto o meu copo para o Tom a música volta a tocar.

- É por conta da casa.

Charlie me dá o presente perfeito para a noite, um whisky que estava na estante do bar desde o dia em que ele abriu. Pego o meu copo e Candy me chama para a minha mesa de frente para o bar.

No guardanapo ela escreve “Não saia daqui sem o meu presente”, mais um beijo e sei que ela vai cumprir a promessa que me fez dizendo que ia fazer o céu ser tremer por mim se eu desse uma chance. Uma diabinha daquelas não brinca quando diz uma coisa dessas. Eu espero o presente ao final da noite, um presente já está garantido.

É a noite do Nighthawks At The Diner, e Tom está inspirado. A voz ecoa pelo salão cantando melodias que soam como os poemas das noites frias de New Orleans. Cada música conta uma história, e cada história soa familiar para todos ali. As palmas e os risos são constantes. É uma linda história vivida e contada pelo velho Tom, com a voz rasgada e entre goles no whisky.

Eu viajo fundo em boas lembranças da vida que passei. Que vivo há tanto tempo e ainda busco a boa felicidade em momentos que eu espero guardar como boas músicas. Histórias para guardar para onde o sempre me levar.

Na mesa, eu revivo muitas coisas, e claro, sempre uma ou outra garota surge para colorir as canções de amor, esperanças e desilusões. Aquela, a The One, ainda está por aparecer. È, esse presente ainda não chegou e estou esperando a promessa do destino dos justos, quando tudo aquilo que eu mereço vai bater na minha porta e dizer: “Face it tiger. You hit the Jackpott”. Pode ser Candy ou outra garota que ainda não conheço, mas até lá, Fumblin’ With the Blues.

Tom me chama para o palco falando que essa eu sei melhor do que ele. Não é exagero, a música é o quase o meu retrato, logo eu assumo o piado do Jimmy. A nuvem de nicotina que surge do meu cigarro e a luz jogada no meu rosto ajuda na hora de fingir que não existe ninguém na platéia.

A música corre pelas notas e eu me divirto como nunca cantando com Tom uma vida levada em meio à dead ends, mas sempre buscando uma janela para pular para a fuga perfeita. Acertando as teclas em sintonia com o contrabaixo. Fecho os olhos para sentir a música, mas não é necessário. Eu estou vivendo ela agora. Doce, cheia de torpor pelo álcool, com um a fumaça do cigarro fazendo a neblina para dar o clima de suspense, mas seguindo em frente na rua pelo greyhound bus, cantando um Blues pelas noites e apreciando tudo que tenho e desejando cada vez mais. “Querer tudo não é ganância, só uma visão sincera do que eu mereço”.

E a noite segue assim, eu no piano, Tom cantando e contando as histórias que todos adoram. Os sorrisos são verdadeiros. A diversão e a música só estão aquecendo a noite. Aquela festa onde os amigos estão nas mesas da frente e a bebida nunca acaba e as mulheres são todas belas. Ofereço uma música para Candy, o presente está garantido no final da noite, e ela merece um agrado. Adoro ver aquela garota sorrindo. Ela me manda um beijo e eu já sinto o perfume dela que vai ficar em mim por muitos dias.

E nós tocamos. Tom fala das estrelas de Los Angeles e como a cidade apaga o céu e ele espera que um dia essas luzes se apaguem. “The Angels need more light”, eu improviso e a história segue a diante, e vai sem parar até que a noite vai chegando ao seu fim.

Cada um dos amigos vai se despedindo, a festa foi realmente muito boa. Tom resiste mas termina a noite. Ele agradece os presentes e deseja a todos uma boa noite. Candy pega o meu paletó e vestida de vermelho me agarra pelo braço.

Agradeço a Tom pela noite, e como sempre ele fala:

- See you tomorrow night kid.

Eu aceno com a certeza e desço a rua com Candy ao meu lado, cantarolando a 7° do primeiro disco sabendo que novamente tenho um ano para agradecer e muitos mais para coletar. E como sempre…

Fumblin’ with the blues

Tom Waits

Friday left me fumblin’ with the blues
And it’s hard to win when you always lose
Because the nightspots spend your spirit
Beat your head against the wall
Two dead ends and you’ve still got to choose
You know the bartenders
They all know my name
And they catch me when I’m pulling up lame
And I’m a pool-shooting-shimmy-shyster shaking my head
When I should be living clean instead
You know the ladies I’ve been seeing off and on
Well they spend your love and then they’re gone
You can’t be lovin’ someone who is savage and cruel
Take your love and then they leave on out of town
No they do
Well now fallin’ in love is such a breeze
But its standin’ up that’s so hard for me
I wanna squeeze you but I’m scared to death I’d break your back
You know your perfume
Well it won’t let me be
You know the bartenders all know my name
And they catch me when I’m pulling up lame
And I’m a pool-shooting-shimmy-shyster shaking my head
When I should be living clean instead
Come on baby
Let your love light shine
Gotta bury me inside of your fire
Because your eyes are ‘nough to blind me
You’re like a-looking at the sun
You gotta whisper tell me I’m the one
Come on and whisper tell me I’m the one
Gotta whisper tell me I’m the one
Come on and whisper tell me I’m the one

Tom Waits 277758


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