Sons começam a fazer sentido na forma que os meus ouvidos percebem algo lá fora. Nesse instante os olhos voltam ao contexto. Pressiono as pálpebras. É, agora eu acordei.
Abro os olhos como se estivesse carregando toneladas, lentamente a luz do lado de fora não trás tanta agonia como sempre. O dia está cinza lá fora. Assim as paredes do meu quarto não refletem a luz do vilão metido a estrela que brilha lá fora. Ao tentar mudar a cabeça de sua original situação, sinto o peso. Ainda esta ali. Correndo agora por todos os cantos. O álcool da noite seguinte se mantém firme em mim.
Memórias de horas atrás na festa vem a minha cabeça. Como um flashback do LOST, tudo aparece fora de ordem e sem muita cronologia.
Vejo as conversas com os amigos antes de entrar na festa. Todas aquelas pessoas na frente e suas translúcidas trivialidades estampadas em modos, roupas e atitudes. Transpirando desejos de uma noite para serem vistos.
Olho ao redor e converso com os meus amigos. Todas as piadas internas de uma noite cheia de momentos divertidos em comentários e histórias para contar regadas as cervejas e cigarros que queimam pela noite na minha mão.
Então pisco pelo brisa fria que chega ao meu corpo. Contorcendo os braços, destilo um resido de sono que estava perdido entre algumas costelas, e o efeito me joga de volta para o sonho que foi interrompido pela realidade do acordar. Lá estava eu fugindo de uma invasão de outro planeta. As ruas estavam vazias, eram dez horas da noite e o supermercado estava deserto. Corria pelas prateleiras procurando coisas que me ajudariam a sobreviver ao impossível. Tudo estava ruindo. Que propósito o biscoito de chocolate vai ter amanhã quando não existe mais uma realidade normal lá fora? O que há lá fora?
Novamente a sensação de estar em outro lugar me atinge. Não me sinto correndo, estou deitado?
Espera, isso é o sonho de novo? Ignoro a realidade e me deixo por aqui mais um tempo? Provavelmente ainda não é 1 hora.
A luz atinge destruindo todas as imagens que corriam pelos meus olhos no supermercado assim que abro os olhos. O quarto ainda está meio escuro. Não tenho coragem para estender a mão e ver que horas são no celular. Estico os braços em busca do tremor no corpo que faz os músculos se estirarem ao ponto de jogar alguma endorfina no sangue. Sem muita resposta. A vontade de levantar perde de forma vergonhosa para os macios fios do lençol que se amarrou em mim.
Talvez essa seja a hora de levantar. Estou perdido no tempo sem saber se é cedo ou tarde para encarar a realidade de uma dia, em que tudo que eu quero é continuar sonhando com algo que não é conhecido. A frustração de saber que é domingo e nada vai acontecer a não ser a série que acompanho chega ao seu ultimo episódio. Cravo os dedos no tecido do lençol em busca da cama. Forço o corpo a se levantar e lentamente o álcool se solta e volta a minha cabeça. Sentado na cama eu sinto a tontura de que algo ainda sobrou da noite passada.
A garota de fora da cidade que você conheceu lá. Como os cachos do cabelo dela lembravam em alguma associação sem razão alguma, a cidade de onde ela vinha. Ao se despedir, propositalmente mirando a boca, fingi um acidente para conseguir sentir os lábios dela. Que em seguida sorriram de vergonha.
De volta ao agora, eu acho graça do momento. Não sei como me levo a fazer tais coisas, elas simplesmente tomam conta do momento. Como a próxima palavra surge na frente da anterior para continuar uma história. Eu estico as pernas em direção a cozinha, acordar não acontece até o momento de tomar o café.
Rezo para não ser tarde demais e que ainda tenha um pouco na cafeteira. Os passos me lembram que ainda estou com álcool o suficiente para ser no mínimo digno de nota a necessidade de se andar em linha reta. O café desce a caneca e logo o calor na boca trás a mensagem que isso é real e acordado é a próxima parada da consciência.
A festa começa a se fixar na memória, a garota entra na lista de “mulheres que me tomaram a atenção por uma noite”, e o sonho se aplica na categoria “O fim do mundo, e agora? O que eu faço? Sobrevivência em uma noite”.
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