17
Jun
08

“Ok! Agora sim chegamos ao Inferno!”

Uma noite. Uma saga. Uma festa nas entranhas da cidade.

É de conhecimento de todos que vícios quando não são controlados podem levar uma pessoa a uma série de problemas. Todo viciado em recuperação tem como meta não cair mais em tentação e não se perder mais naquela coisa que controlava as suas vontades.

Mas quando esse vicio é algo bom? Que faz você se sentir vivo. Ele não vale a pena?

Essa teoria foi colocada a prova nesse final de semana, quando o meu vicio por festas atingiu um ponto critico, o que levou eu e a minha amiga parceira de blog, Isabela em uma saga pelas ruas da cidade em suas horas mais desertas.

Como toda grande história moderna, essa começa na internet.

Pouco mais das 21:30 da noite descubro que a festa que esperava acontecer no sábado da semana seguinte, na verdade aconteceria dentro de 3 horas. Morando de uma distância absurda do local, só restava procurar a ajuda dos amigos. Poucos estavam on line para responder. Sem ter como ir ou muito menos como voltar para casa, busco todos os recursos possíveis. Minha maquina de distorção de espaço-tempo ainda não está completa, então teletransporte estava fora de cogitação. O tempo passava e cada vez mais ficava difícil. O corpo já pedia pela sua dose. Um sábado à noite em casa é uma noite muito longa. Até que as 22:10 Isabela entra no MSN, e começo a falar dos efeitos colaterais da falta de uma dose. Do outro lado da janela do MSN Isabela joga uma luz. Um modo de voltar da festa.

Logo o céu se abre e começamos o plano para a noite. Chegar no local. Só há um modo. Ir de ônibus. Uma empreitada muito arriscada pelo horário e a provável falta de transporte nas ruas. Mas era um risco a se correr. Começo a me arrumar para a festa, óculos escuro no bolso, (em caso de ter que dormir em algum lugar e ter que voltar de dia para casa), dinheiro, documentos, celular, cigarro, isqueiro e logo estou pronto. Isabela chega e vamos para a parada mais próxima. A noite avança e as 23:30 não havia sinal de ônibus em lugar algum na rua. Sem muitas esperanças surge uma Kombi velha com o destino limitado há 1/4 do caminho. “Será?” Isabela me pergunta. “Não temos muita escolha. Vamos nessa.”

1 Mapa da festa copy

 

Só para provar, essa é a distância de onde estavamos e onde era a festa.

Dois lugares no fundo e lotado de pessoas aleatórias dos mais estranhos lugares. 20 Km por hora para que o carro não se desmanche no caminho e então chegamos no ponto de descer. Outro momento de tensão. Paramos longe da outra parada de ônibus. Andar na frente de um shopping fechado e cercado de camelôs que dormem sobre suas barracas para não serem roubados não é uma experiência que transmite segurança. Mas sem saída, andamos em busca do segundo meio para chegar à festa.

Um minuto para a meia noite. Respondo a pergunta de Isabela. Começo a duvidar se essa idéia era boa. “Como voltar para casa agora?”. Então um tiro no escuro resolve iluminar o horizonte. Um ônibus que não demonstrava ter ligação nenhuma com nossa história se mostra uma ferramenta do destino daquela noite. Felizes com o resultado, comemoramos a vitória só para saber que o inferno era o destino.

Como uma transição dimensional, o túnel nos levou para um local diferente. Carros estavam parados e o barulho era insuportável. O coletivo que estava atrás de nós se mostrou incapaz de seguir pelo nosso caminho, e perigosamente recuou da entrada do túnel para tomar outro rumo. O que poderia ter assustado o motorista de tal forma? E como um oráculo rogando avisos de cuidado para os viajantes, uma mulher ao nosso lado avisa. “Uma festa a frente cheia de bêbados está atrapalhando o transito. Vamos ficar aqui por um bom tempo”.

A profecia se cumpriu, mas desejávamos que fosse diferente. Lentamente chegamos ao local onde havia uma reunião de almas perdidas. Todas vestindo vestes amarelas. Mulheres horrendas, homens desfigurados e andando como zumbis. Uma micareta! A escória da cadeia social cercava nosso ônibus e o batia com suas mãos no vidro assustando todos no interior. Olhando para Isabela era certo, havíamos morrido em uma explosão na Kombi velha. O ônibus era só um transporte pelos portões do inferno, e havíamos chegado ao primeiro circulo, onde todos os nossos mais horrendos medos cercavam o nosso horizonte. E como bestas do inferno, os demônios se beijavam e trocavam fluidos na rua, um antro de blasfêmia e depravação que assustava a todos nós. Porém o destino ainda não havia se cumprido. O motorista havia feito um voto de honra em levar os passageiros ao seu destino, e era isso que ele faria! Esbravejando com as bestas, ele levava a passos pequenos o monstro de metal em diante para longe das criaturas que nos cercavam. E o sinal no horizonte mostrava a luz verde, ele joga o ônibus em cima das bestas, que assustadas correm. Ele acelera e passamos do bloqueio. A vitoria foi plena, mas muito tempo se perdeu. E logo o motorista apaga as luzes e segue em uma velocidade absurda para compensar o atraso. Aos trancos e sustos avançamos pelas ruas como um raio. Curvas tortuosas nos jogam para os lados e buracos nos levam ao céu. “Se não estamos mais no inferno, pelo menos vamos chegar lá bem rápido”, digo rindo para Isabela que como eu sorri nervoso. Beirando a loucura o motorista se mostra mais do que eficiente e cumpre a sua promessa. Deixa-nos mais próximo do nosso destino. Só resta agora atravessar algumas ruas desertas, passando da meia noite, em direção a festa.

Durante o caminho, acendo um cigarro e pergunto para um vigia de museu como chegar ao local. Estranhando a situação, ele nos dá as coordenadas e seguimos a pé pela noite em um cenário cheio de vida durante o dia, mas que agora lembrava um vale de sombras onde o som de pássaros, chegam a parecer um revoar de predadores com asas. Em algum tempo, achamos as luzes da praça e a igreja sendo reconstruída. Provavelmente estávamos vivos. Mais adiante acima de uma porta de uma casa velha, o nome do destino se mostrava para nós. A jornada havia chegado ao seu ponto de convergência.

Incrédulos, olhamos para o relógio. 00:48, estávamos finalmente lá.

Passamos pela portaria, descemos escadas, subimos outras, e logo a música mostra a sua origem.

Como em um sonho com rostos familiares, encontramos amigos que não esperávamos ver ali. Todos comemoram com sorrisos e braços abertos a nossa chegada no local.

Então dançamos e vimos que todo o martírio valeu à pena. O local era rústico, a iluminação sem muitos detalhes, o que dava uma idéia de ser tudo uma continuidade de uma viagem insólita em outra dimensão. Lindas garotas surgindo de um lado, homens de máscara e pinturas na cara do outro. Logo algumas das garotas beijavam outras garotas e essa cena bela se perdia ao ver dois homens se beijando. Uma constante que levou há um jogo que durou a noite inteira, chegando ao final de 5X2 para os beijos lésbicos, o que pra mim foi uma perfeita vitória e um agrado para a noite que ainda tinha mais surpresas.

Surgindo da mesa do DJ, um dos mascarados da noite pega um megafone e anuncia que o palco principal estava aberto agora. E que todos podiam ir para lá.

Como uma armadilha tramada por um demônio, todos foram levados ao palco principal, que se encontrava em um andar abaixo de um lance de escadas, cercado por saídas laterais que ficavam acima do palco. Em outras palavras, um buraco. Inadvertidos no início, todos nós dançamos ao som de músicas pulsantes. Mash ups, batidas conhecidas. Elevando a temperatura de forma considerável. Até que o Muse soa em uma batida eletrônica cantando “Supermassive Black Hole”, Era um sinal. O fogo queimava ao nosso redor. Cada pessoa era uma chama, e logo falamos um para o outro, “Agora sim! Nós chegamos ao Inferno!”

Se uma vez no Inferno, procure fazer parte do ambiente e faça amizades. Logo continuamos a dançar, beber, fumar em busca de agradar ao dono do estabelecimento. Conheço Lúcifer e o seu senso de humor, e acredito que ele gostou da festa assim como nós. Brincamos como crianças com uma bola jogando uns nos outros, depois pulamos gritando “Never do what they told ya”, balançando a cabeça e gritando na rebeldia alegórica ao sons de guitarra e bateria eletrônica. A vida escorria com o suor por toda a pista. E assim foi por um bom tempo, até que resolvemos parar. A noite estava cansativa, então fomos mais uma vez para a parte alta da festa.

Mais calma que o buraco, mas nem por isso menos viva. A música era relaxante e boa. Perfeita para acalmar as pernas e fumar um cigarro olhando algumas garotas na pista. Em meio às conversas com os amigos, figuras estranhas aparecem como sendo os fatores caóticos. Em meio a algumas músicas bizarras, Isabela foi abordada junto com um amigo por um “figura” com uma série de perguntas um tanto quanto estranhas, que levaram a questão:
-“Eu queria saber se rolava da gente fazer um mix. Então resolvi perguntar para não parecer desrespeitoso”

Ao ouvir a história assim que ela havia terminado, me juntei aos risos dos dois sobre o absurdo do momento. Inevitavelmente a festa ainda mantinha momentos estranhos como esse em sua história.

A noite chegava aos seus momentos finais, e cansados pedimos ajuda superior para poder nos levar para casa. Nos despedimos dos amigos que ainda se encontravam no local. Era hora de voltar para o mundo real. E com a carruagem de Nossa Senhora de Fátima, (ou o carro da mãe da Isabela), pegamos uma carona de volta para nossas casas. Agradeço a Isabela, a parceira no crime de uma noite que valeu cada uma das excentricidades para ter essa história de vida para contar.

De volta em casa, a noite que passou pelos mais distantes pontos das possibilidades, foi mais uma prova que alguns vícios são para a vida toda. E nem todos eles matam. Andar pelo Inferno e voltar é só uma aventura para se ter a sensação de estar vivo.

Seja no extremo que for, se for boa, naquela festa vou estar.


1 Resposta to ““Ok! Agora sim chegamos ao Inferno!””


  1. Junho 18, 2008 ás 6:53 pm

    AAHAHHAAHAHHAHAHAHAHAHAHAHA NA CARRUAGEM DA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA!!! essa ela vai amar! detalhe que a própria santa também tava voltando da festa dela :P


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