No cair da consciência, em seu momento de busca pelo descanso, o racional cede à fantasia.
A ordem de nossas naturezas criadas em meio às regras que nos são impostas se tornam devaneios. Somente resta dormir para que a liberdade seja plena. Ao fechar as janelas que alimentam a mente com o concreto. No escuro, os sonhos tomam suas formas.
Estava atirado em meio a rostos estranhos que relembravam algo esquecido de conhecimento inegável. Minha sociabilidade não é tão abrangente quanto eu gostaria. Neste momento percebo que reviver o passado em sonho é composto de manipulação.
- Eu não quero relembrar dessa noite.
Emprego então o fim de todos os atos falhos, retrocedo em seguir o caminho que me tirou o prazer da noite perdida. Vejo o terno no corpo e o chapéu na cabeça.
- Ah! Eu reconheço isso, essa é a minha música.
Virginia Avenue, here I am.
Passando por uma porta cinza com anúncios de shows ao vivo, Candy acende o meu cigarro e Bobby me entrega o primeiro drink. Não poderia ser diferente, era uma noite de Blues. Tom acena para o relógio, eu já me encontrava atrasado. Candy tira o meu casaco e seu beijo fica no meu pescoço até o fim da noite. No palco assumo o piano tocando as notas de uma melodia azul. As notas soltas no ar esfumaçado pelo cigarro soam leves, dançando a cada história, a cada nova composição. Mas hoje à noite o cello não está com o velho Frank. Em seu lugar está uma dama em vestes brancas medievais. Seus cabelos cacheados em ouro quando jogados para trás mostram o rosto de Marina que sorri deliciosamente com a minha reação de surpresa. Tom acende o cigarro e começa a cantar sobre sonhos e Midnight Lullaby.
Notas, cordas e voz cantam as histórias de amores perdidos, noites frias de solidão e a doce melancolia de notas de paixões.
A fumaça fica mais densa, as notas vão ficando cada vez mais lentas e baixas. Logo o escuro toma conta de tudo ao meu redor.
Assustado, abro os olhos antes apagados. Uma nova noite. Essa é mais escura.
A ausência está lá novamente. Mais forte do que nunca sendo que o coração está parado e o frio domina o corpo.
- Estou morto. Sim, este é o meu livro.
Ando agora em páginas não escritas da cidade de minhas histórias. Personagens esquecidos cruzam meu caminho. Notas e detalhes tomam vidas em personagens no limiar da criação. Todos estão vivos nessa grande imaginação. Eu caminho agora como o personagem em uma simbiótica visão, hora como criador e hora como criatura.
No frio do sangue eu sinto o poder de se deslocar pela noite. Subo em prédios e corro por telhados. O instinto de ser mais do que o normal e eterno como a escuridão da noite. Posso ouvir o vento tentar me segurar, mas eu continuo correndo. A gravidade não consegue me impedir, saio voando. Cada luz no chão é bela em sua simples condição de acenar que estou tão distante do chão. É frio e aterrador, mas ainda sim uma bela sensação.
O couro do sobretudo negro me disfarça de noite enquanto eu danço com o céu observando todos presos no solo. Eu voei mais alto rodando em êxtase, as luzes do chão e das estrelas rodopiam em um caos de luz e escuridão.
Aqui regras são limitadas somente pela desregrada vontade e poder de meu desejo.
Anseio pelo beijo.
Sinto os doces cabelos dourados correndo pelos meus dedos,
Os seus olhos são verdes como a água doce do riacho,
Aquele com as pedras coloridas e os seixos.
Ela me ama apesar de não acreditar nas palavras em seus lábios,
Ela é beleza definitiva em todos os atos,
Da forma como ela mexe nos cabelos,
Enquanto ela pensa nos meus suplícios e desejos,
Por mais daqueles beijos.
A beleza é terna e aquece o coração que estava frio. Os olhos verdes me trazem uma lembrança de corredores de mato fino e extenso. Árvores e montes são colunas que se estendem por horizontes de enormes distâncias. Estou perdido em meio a uma divina extensão de minhas esperanças de amor.
-Este é o único e verdadeiro sonho desta noite.
Diante da contestação do que era real e tangível é o sonho ainda não acordado, eu temo por não mais achar o belo tão vivo.
Enfim é somente uma imagem deslocada de uma fantasia. A mesma que agora descoberta age como uma dolorosa percepção da falta de realidade em meio o plano real.
Eu rogo pelo esquecimento,
Pela escuridão de uma falta de conhecimento,
Eu só queria me apegar a estes momentos,
Então que no escuro e no frio fiquem as minhas histórias contadas em sonhos e tormentos,
Desejo que tudo seja apagado assim que tiver meus olhos abertos.
Gabriel Caldas.
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