19
Mai
09

Walk Believer Walk

Era um terno preto, maltratado pelo tempo e sapatos cinza. Sem muita ligação com o conjunto completo. A estrada de terra deserta também não fazia parte dos planos. Nas costas uma guitarra semi usada.
Ao sentar, não levou muito tempo para um homem chegar perguntando se eu sabia tocar. Respondi a verdade negando qualquer habilidade. Ele pede para olhar a peça, fala que ela está desafinada, roda o metal e me entrega pedindo para tentar tocar.
Então o faço e por mágica as notas soam boas e parecem com música. Ele some logo em seguida e fico na estrada tocando até o Sol sumir no horizonte.
Meio dia e meia, abro os olhos e vejo o pôster no teto do meu quarto. Não era real. Exceto pela guitarra ao lado de minha cama, que não sei tocar ainda. Por impulso pego ela nas mãos. Invertida propositalmente para que eu sendo canhoto possa tocar, procuro acertar notas que nem mesmo sei o que significam. Procuro escutar o som que meus movimentos fazem na corda esperando que elas façam música. Uma boa música. É tudo que eu quero.
E ali, naquele exato momento em que eu achei uma melodia, percebi que o sonho era uma fábula sobre a minha vida. Esse é o argumento que sigo desde que tenho uma noção exata do que sou. A estrada a seguir, o Destino tentando mostrar o que fazer e a interminável vontade de criar algo a partir dali, sozinho em algum canto do lugar nenhum. Assim como o som não pode ser considerado música para quem está do lado de fora, os sons provocam reações, reverberações. Elas simplesmente fazem. Assim como esse texto, o sentido em si é perdido em sentimentos de que isso é certo. Isso é meu e preciso fazer.
A estrada pode marcar 26 KM em direção para algum lugar, mas eu não sinto isso. Os sapatos em cinza estão gastos além dessa distância. Eu posso muito bem caminhar mais longe na minha cabeça do que em qualquer outro lugar. Esse pode ser o problema, o que pode me fazer precisar de alguém para apontar a estrada e andar. Assim como também pode ser a única saída para que a estrada leve para algum destino. As pegadas se perdem mesmo que a estrada seja reta. Eu não gosto de olhar para trás, mas cada passo foi longo o suficiente para não ser esquecido tão fácil. Dos dolorosos aos momentos em que corri. Pela terra na mão, usada para não cair ou para refletir sobre o chão da caminhada.
No sonho, acordei no momento em que estava parado tocando a guitarra. Talvez seja isso que esteja fazendo agora. Escrevendo o momento em si que o  sonho era uma música, aqui se expressa em palavras. A razão para isso foge ao sentido da razão em si, já que só escrevo o que a música canta.
Quando encontrei com Destino no sonho, ele vinha do lugar para onde certamente estou indo. Se estou perto ou não de lá, não perguntei. O importante é que agora sei que a “música” está sendo escrita aqui e agora. E eu não pretendo parar de caminhar até chegar lá.


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